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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

VIVA SEM MEDO.

Por Eduardo Galeano*

O medo ameaça:
se você ama, terá Aids
se fuma, terá câncer
se respira, terá contaminação
se bebe, terá acidentes
se come, terá colesterol
se fala, terá desemprego
se caminha, terá violência
se pensa, terá angústia
se duvida, terá loucura
se sente, terá solidão.

Para ter fôlego, é preciso ter desalento. Pra você se levantar, tem que saber cair; para ganhar, tem que saber perder. E temos que saber que assim é a vida e que você cai e se levanta muitas vezes, e que alguns caem e não se levantam nunca mais, geralmente os mais sensíveis, os mais fáceis de se machucar, as pessoas que mais dor sentem ao viver.

As pessoas mais sensíveis são as mais vulneráveis. Em contra partida, esses filhos da puta que se dedicam a atormentar a humanidade vivem vidas longuíssimas, não morrem nunca porque não têm um glândula, que na verdade é bem rara e que se chama consciência. É a que nos atormenta pelas noites.

O exercício da solidariedade, quando se pratica de verdade no dia a dia, é também um exercício de humildade, que ensina a se reconhecer nos outros e a reconhecer a grandeza escondida nas pequenas coisas, o que implica denunciar a falsa

A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.

O século XX, que nasceu anunciando paz e justiça, morreu banhado em sangue e deixou um mundo muito mais injusto que o que havia encontrado. O século XXI, que também nasceu anunciando a paz e a justiça, estáseguindo os mesmos passos do século anterior.
Lá na minha infância, eu estava convencido de que tudo o que na terra se a parar na lua. No entanto os astronautas não encontraram sonhos perdidos, nem promessas traídas, nem esperanças rotas.
Se não estão na lua, onde estão?
Será que na terra não se perderam?
Será que na terra se esconderam?
Estão esperando, esperando nós?

O mundo não é feito de átomos, é feito de histórias...Porque são as histórias que a gente conta, que a gente escuta, recria, multiplica, as histórias são as que permitem transformar, o passado em presente. E que, também, permitem transformar o distante em próximo, o que está distante em algo próximo, possível e visível.


“Um homem do povoado de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir alto no céu e na volta contou: disse que tinha contemplado, lá de cima, a vida humana. E disse que somos um mar de foguinhos. O mundo é isso, revelou: um monte de gente, um mar de foguinhos. Não existem dois fogos iguais. Cada pessoa brilha com luz própria, entre todas as outras. Existem fogos grandes e fogos pequenos, e fogos de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem fica sabendo do vento, e existe gente de fogo louco, que enche o ar de faíscas. Alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam. Mas outros, outros ardem a vida com tanta vontade que não se pode olhá-los sem pestanejar, e quem se aproxima se incendeia.”

Eduardo Galeano* é Jornalista e escritor uruguaio. É autor de mais de quarenta livros, que já foram traduzidos em diversos idiomas. Suas obras transcendem gêneros ortodoxos, combinando ficção, jornalismo, análise política e História.

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